Vó Nira

A senhora dos tempos

 

 

Cinira Pereira dos Santos completa 71 anos bem vividos neste 1º de novembro. Seu currículo é o daquelas pessoas que aprenderam muito com os segredos da vida. Sua sabedoria, o conhecimento que acumulou e sua maneira peculiar de entender as coisas do mundo são mais valiosos do que qualquer título acadêmico.

 

Não é por outro motivo que nenhum pesquisador, ao passar por São Luiz do Paraitinga, deixa de travar longas conversas com Cinira. Dona de uma memória prodigiosa, é capaz de dar detalhes de momentos perdidos na história do povo do Alto Vale do rio Paraíba do Sul. Conhece como ninguém sua cultura e suas diversas manifestações porque esteve sempre atenta a tudo isso – é parte importante da vida dela. Cinira é um repositório de informações preciosas, uma autoridade naquilo que se convencionou chamar de “folclore”, uma profunda conhecedora do caipira e de sua cultura, além de exímia artesã.

 

Foi a mulher da vida de Elpídio dos Santos, compositor multifacetado e músico de fino talento. O mestre compôs sambas, toadas, foxes, guarânias; escreveu dobrados para bandas, arranjos para coros de igreja e músicas para filmes de Amácio Mazzaroppi. Elpídio dos Santos fez de tudo um pouco, inclusive esculturas e telas, além de letras e músicas. Faria muito pouco sem Cinira.

 

Dona Cinira não tem como primeira preocupação a guarda de documentos relativos aos cursos e seminários de que participou, aos títulos ou homenagens formais que recebeu. O que ela gosta mesmo é de conversar, contar histórias e estudar (ao seu jeito) os segredos da flora medicinal.

 

É certo que Dona Cinira orgulha-se de São Luiz do Paraitinga, cidade que ama e cuja geografia sentimental e lúdica ela conhece como a palma da própria mão. Mais certo ainda é que São Luiz se orgulha muito dela. Não era para menos: Cinira é linda.

 

(Luiz Egypto¸ agosto de 1997)